Código ficou abundante. Mercado não.
A experiência de construir e encerrar o Fio me ajudou a entender a provocação de Claire Vo: quando software fica mais fácil de produzir, o trabalho de produto exige mais evidência de mercado.
Por Luciano Abreu

Nos últimos meses, consegui levar sozinho um aplicativo mobile ao TestFlight. O software funcionava. O que eu não consegui provar foi que alguém mudaria de hábito por causa dele.
Já acompanho o trabalho da Claire Vo há algum tempo. Recentemente, assisti ao vídeo da palestra dela no Compile 2026, evento da Cursor, sobre o que significa trabalhar com produto quando construir software fica cada vez mais acessível.
Foi por ter encerrado o Fio que a palestra fez tanto sentido para mim. Claire colocou backlogs, story points e os novos loops multiagentes dentro da mesma discussão: quanta atividade produzimos sem saber se ela cria valor?
Construir o Fio ficou mais fácil do que provar que ele deveria continuar existindo.
O Fio separou software de produto
O Fio era um aplicativo para iPhone que transformava artigos, tweets, PDFs, newsletters, links e screenshots em podcasts privados.
Para construí-lo, combinei OCR, LLMs diferentes, orquestração de AI Agents, Evals, APIs, recuperação de fontes e geração de voz. Hoje, acessar cada uma dessas tecnologias ficou muito mais fácil. Integrá-las, avaliar a qualidade do resultado e fazer o sistema funcionar com confiabilidade ainda exigiu bastante trabalho, mas a distância entre uma ideia e um beta funcional diminuiu muito.
O Fio funcionava bem o suficiente para um beta. A parte que não se provou foi outra. Eu tinha até algumas dezenas de pessoas na lista de espera, mas as conversas não mostraram urgência ou disposição para pagar suficientes, as alternativas gratuitas elevaram a régua e o formato semanal não demonstrou uma diferenciação relevante.
Encerrei o produto em vez de tratar uma demonstração funcional como validação.
Essa experiência mudou o que entendo por restrição em produto. Quando engenharia era mais escassa, o PM precisava proteger a capacidade do time. No Fio, eu tinha capacidade para continuar construindo. O que faltava era evidência de mercado.
Foi nesse ponto que a frase de Claire ficou mais concreta para mim: código ficou abundante, mas não apareceram mais coisas que as pessoas querem ou pelas quais estão dispostas a pagar.
Onde o comportamento mudou
Claire retoma uma frase conhecida de produto: construir algo que as pessoas querem. A provocação dela é perguntar o que “querer” realmente significa.
Eu não acho suficiente alguém dizer que um problema existe ou elogiar um protótipo. Essas respostas ajudam a formular uma hipótese, mas ainda deixam duas perguntas abertas: alguém pagaria para resolver isso? Alguém mudaria a forma de trabalhar para adotar a solução? (Leia o incrível livro The Mom Test se quiser saber mais sobre esse assunto.)
O trabalho que sobra para o PM
Não terminei o vídeo achando que todo PM precisa virar engenheiro. Fiquei com uma cobrança mais simples: se ficou mais fácil materializar ideias, escolher onde gastar essa capacidade ficou mais importante.
Quando qualquer pessoa do time consegue colocar uma solução de pé, o cargo de quem tomou a decisão importa menos do que a qualidade da decisão. Isso não elimina diferenças entre produto, design e engenharia. Apenas torna menos útil a divisão em que uma função decide, outra especifica e uma terceira executa sem participar da escolha.
No Fio, usei IA para explorar alternativas, construir partes do sistema e revisar o resultado. Ela também conseguia produzir uma defesa elegante para uma ideia fraca. Nenhum modelo podia decidir por mim se a evidência era suficiente para continuar investindo.
Dados ajudam a reduzir incerteza. Pesquisa revela problemas. Experimentos expõem hipóteses ao mercado. Ainda assim, chega um momento em que alguém precisa escolher uma direção com informação incompleta e assumir a responsabilidade por essa aposta.
Claire também fala sobre o futuro do cargo. O título de Product Manager provavelmente continuará existindo, especialmente em organizações maiores. O trabalho, porém, tende a se afastar de simplesmente organizar backlog, escrever tickets e proteger capacidade.
Para mim, o centro está em decidir o que merece ser construído, encontrar evidência de que aquilo importa e interromper o investimento quando essa evidência não aparece. A velocidade continua valiosa. Ela só não pode ser confundida com progresso.
O Fio me deixou menos impressionado com a velocidade de construir e mais atento ao que acontece depois. Hoje consigo colocar uma ideia de pé muito cedo. Isso só torna mais urgente descobrir se alguém muda o comportamento, volta e paga.
Construir deixou de ser prova. O julgamento de produto aparece na evidência que exigimos para continuar e na disposição de parar quando ela não aparece.